sexta-feira, 7 de julho de 2017

"Ela morreu nos meus braços"

O enterro da professora Luisiana Barros Costa, uma das quatro pessoas mortas no tiroteio em um centro espírita do Grande Recife, foi marcado pelo depoimento emocionado do viúvo, o professor Sérgio Costa. Nesta sexta-feira (7), ele relatou o crime com detalhes e lembrou os últimos instantes da vida da mulher, com quem viveu durante 39 anos. “Ela era uma guerreira. Morreu nos meus braços”, disse.

Vestindo uma camisa que mostrava a família em um momento de celebração, ele concedeu uma entrevista antes do sepultamento, no Cemitério Parque das Flores, na Zona Oeste do Recife. Com muita calma, ele relatou o momento em que encontrou Luisiana caída no meio do salão, após ter sido baleada durante uma palestra na sede do Grupo Espírita Amor Ao Próximo (Geap), em Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, na noite de quarta-feira (5).


Ao falar sobre a esposa, o professor recordou a trajetória do casal. “Ela meu ajudou muito. Eu era professor e não tinha tempo para criar meus filhos. Foi ela quem os criou. Eu me preparei a vida toda para deixa-la bem, mas agora foi ela que me deixou”, disse.


Irmão do deputado federal Sílvio Costa (PTdoB) e tio do deputado estadual Sílvio Costa Filho (PRB), Sérgio recebeu no cemitério o apoio de políticos pernambucanos. Entre eles, o senador Armando Monteiro Neto (PTB) e o ex-prefeito do Recife João Paulo (PT).

Refém

Na entrevista, Sérgio Costa lembrou de todo o crime, durante o qual ficou com a arma apontada na cabeça. “Eu era o refém e a minha mulher estava rezando. Ela estava em tratamento espiritual. Morreu a mulher do refém”, recordou o professor.


Costa disse que a quarta-feira seria mais uma noite em que o casal e um dos filhos manteriam a rotina de frequentar o Geap. “Meus filhos iam lá desde pequenos”, explicou.


Por volta das 20h50, ele chegou para buscar a mulher no centro. Desceu do carro e encontrou com o guardador de carros e o vendedor de pipocas, que conhece há anos. “Estava chovendo e a gente ficou conversando na área coberta, na entrada do centro. Tinha um senhor esperando a esposa também”, apontou.


Foi nesse momento, segundo Costa, que quatro homens chegaram. “Eles estavam agressivos e inquietos”, lembrou. Para o professor, eles demonstraram não saber o que estava acontecendo no imóvel nem que era um local reservado a orações. “Eles perguntaram o que era aquilo e eu disse que as pessoas estavam rezando”, disse.


O professor contou que foi o primeiro a ser abordado pelos assaltantes. Com a arma na cabeça entrou no salão. O palestrante Liszt Rangel finalizava os trabalhos. “O cara gritava é assalto. Se falar, eu mato ele. Esse ele era eu”, observou.



No salão, o palestrante tinha conseguido manter a tranquilidade das 150 pessoas que participavam do encontro. “Ele manteve o equilíbrio”, pontuou.

Tiros

A situação, segundo Sérgio Costa, mudou quando um dos bandidos pediu para um dos auxiliares do palestrante tirar a camisa. Ele queria colocar os celulares e carteiras roubados dos participantes do encontro.


Nesse momento, ele percebeu que um dos homens abaixou a cabeça. O outro suspeito que estava ao lado também fez o mesmo gesto. “Aí, um rapaz que estava no meio do salão colocou a mão nas costas, puxou a arma e disparou no assaltante que passou. O bandido que estava perto atirou na cabeça desse rapaz”, contou.


Para reforçar a lembrança, Costa fez, de forma repetida, o gesto de quem põe a mão nas costas e puxa uma arma. “Eu vi ele puxando a arma e atirando”, disse.

Futuro

No fim da entrevista, Costa afirmou que vai voltar ao mesmo local da morte da esposa. Também pretende fazer uma homenagem a ela. “Vou fazer uma palestra inicial e vou chamar uma pessoa que ela gostava muito para fazer a palestra de encerramento. Sei que vai lotar aquilo lá. Vou continuar frequentando o Geap”, anunciou.

Entenda o caso

Localizado no município de Jaboatão dos Guararapes, o Geap sediava uma palestra, por volta das 21h30 da quarta (5), quando dois homens anunciaram o assalto. Segundo a delegada Gleide Angelo, responsável pelo início das investigações, a dupla fingiu participar do evento. No momento do tiroteio, cerca de 150 pessoas estavam no centro espírita.

Gleide Angelo disse, ainda, que a mulher que morreu estava no salão e foi baleada durante o tiroteio. O marido dela, irmão do deputado federal Silvio Costa (PT do B), se encontrava do lado de fora do centro e foi rendido pelos bandidos, que apontaram uma arma para a cabeça dele. Com os suspeitos que morreram no local, a polícia encontrou uma bolsa com celulares e objetos roubados. Eram cerca de 30 telefones. Eles também estavam com armas utilizadas na investida.

Na tarde da quinta (6), a Polícia Civil de Pernambuco informou que, com o avanço das investigações, ficou constatado que havia outro policial militar dentro do Grupo Espírita Amor ao Próximo (Geap) no momento da investida. Este outro PM, que estava na parte de cima da casa e reagiu, foi o responsável por matar a dupla de suspeitos.

O cabo da PM Alexandro Alves de Melo foi enterrado no Cemitério de Igarassu, na tarde da quinta (6).

Portal G1

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