segunda-feira, 8 de maio de 2017

Homem trans assassinado na Bahia

“Sou feito de amor, principalmente de amor próprio”. Essas foram as últimas palavras publicadas pelo homem trans (nascido mulher, mas que se identifica como homem) Thadeu Nascimento, ou Têu Nascimento como gostava de ser chamado, em uma rede social na noite de quinta-feira (04). No dia seguinte, ele seguiria para o trabalho como vendedor, mas não chegou para trabalhar. Amigos tentaram contactá-lo, mas não tiveram sucesso. Sua casa, no bairro da Fazenda Grande 3 (Cajazeiras), foi invadida. Levaram uma televisão, reviraram o imóvel mas deixaram a mochila onde estava até a marmita que ele levaria o trabalho. O corpo de Têu foi encontrado no bairro de São Cristóvão, em Salvador, por volta das 7h da última sexta-feira (05) na rua da Rodagem, segundo registro feito pela central das polícias civil e militar.

Os amigos e familiares procuram por Têu desde então, mas seu corpo só foi localizado na noite deste sábado (06) no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. O corpo tinha marcas de espancamento e de tiros na cabeça. O Departamento de Polícia Técnica (DPT) informou neste domingo (07) que os resultados da perícia no corpo de Têo devem ficar prontos em até 30 dias. Até o momento não há informações sobre a motivação e autoria do crime. O caso deverá ser investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

O Centro Municipal de Referência LGBT (CMRLGBT) de Salvador informou que na noite de sábado (06) foi encaminhada a denúncia do desaparecimento de Thadeu, homem trans, através da militante Andressa Belut. “Logo entramos em contato com a 13ª delegacia (Cajazeiras), onde fomos informados que o apartamento estava revirado, informação essa dada pela família. Após três horas fomos comunicados por familiares que infelizmente havia sido encontrado sem vida”, afirmou Vida Bruno, coordenador do CMRLGBT.

Teu foi sepultado na manhã de hoje, na capital baiana.

Gente boa - Um amigo de Têu, que prefere não se identificar, lembra com carinho do amigo. “Conheci Tadeu num curso criado para jovens trans. Ele sempre ajudava os meninos novos, que chamamos de pré T ( que ainda não se hormonizam) com dúvidas, orientações etc. Ele sempre se fez presente na hora de ajudar os meninos. Lembro de uma vez que ele estava sem trabalhar, começou o curso de barbeiro e achou o trabalho atual (em uma loja de informática). Ele saia da loja e ia pro curso. Vivia postando fotos. Há alguns dias ele disse : gente tô pensando em tirar um dia pra gente se reunir pra cortamos os cabelos de graça, tô precisando treinar.Tem outros meninos que são barbeiros e a idéia dele todo mundo adorou, infelizmente ele não vai poder realizar”, lamenta o amigo.

A sensação dos amigos é de incredulidade. “Ele era tão gente boa. Não consigo entender como isso aconteceu com ele e porque. Ele sempre compartilhava os resultados da academia com a gente, sempre que podia interagia. Anteontem eu marquei ele em uma conversa num grupo de WhastsApp para perguntar o que ele tomava pra proteger o fígado e ele não respondeu, possivelmente ele estava tentando de proteger das violências sofridas”, relembra o amigo.

O coletivo De Transs Pra Frente, que é voltado para o desenvolvimento de ações para a população trans e travesti na Bahia, em nota publicada pelo Facebook, se solidarizou com a família do Têu e pediu justiça. “Perdemos nosso querido Têu Nascimento para a violência… Nossa solidariedade à família e amigos e acompanharemos as investigações em busca de justiça. Siga em paz, Têu!”. Diante de mais uma morte envolvendo uma pessoa trans, a coordenadora do Grupo Famílias Pela Diversidade, Inês Silva, questionou: “Todo dia acontece um caso de violência. Até quando?”.

Pelas redes sociais, a militante Eide Paiva, que é irmã de santo de Têu, escreveu: “Estou profundamente triste. Conheci Têu há pouco mais de três anos, quando ele voltou a morar em Salvador cheio de vida, e de planos. Ele era de fé, do trabalho e da luta. Chegamos a planejar discutir a transfobia e a lesbofobia em nossa casa, em outros terreiros, mas não tivemos tempo. Meu irmão não teve tempo nem mesmo de ser aceito e respeitado por todas as pessoas que ele amava e respeitava. Sua juventude foi roubada logo cedo no jogo duro da desigualdade, onde o racismo e sexismo o transformaram em escravo do sistema, mas não lhe tiraram o riso largo, a capacidade de sonhar e lutar pelo seus ideais. Agora recebo essa notícia triste. A transfobia ceifou a vida do meu irmão, e eu choro por ele, por mim, por nós… Que Olorum o receba em paz, que suas dores sejam curadas!! Que meu irmão descanse e que a justiça de Xangô se faça!! Que Orixás me protejam na luta pelo fim da LGBTfobia, pelo bem viver”, escreveu.

Quando vai parar? - O contador de morte de pessoas LGBTs no Brasil não para. Ele segue com uma velocidade entristecedora. Dados do Grupo Gay da Bahia indicam que só este ano 117 pessoas LGBTs já foram assassinadas. Os números deste ano são alarmantes já que 144 pessoas transexuais e travestis mortas no Brasil em 2016 – um aumento de 22% em relação a 2015. O risco de uma pessoa trans ou travesti ser assassinada é 14 vezes maior do que um gay. Segundo agências internacionais, a exemplo da Trans Respect Versus Transphobia World Wide , mais da metade dos homicídios de transexuais do mundo ocorrem no Brasil.

Correio da Bahia

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