quinta-feira, 4 de maio de 2017

Entidades de PE apontam que subnotificação de casos de violência sexual de crianças e adolescentes chega a 90%

De cada 10 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes em Pernambuco, até nove deixam de ser denunciados no estado, o que representa uma subnotificação de 90%. O alerta foi feito durante o lançamento da campanha de enfrentamento a esse tipo de violência, ocorrido nesta quinta-feira (4) na sede do Centro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Pernambuco, na área central do Recife.

De acordo com a professora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Valéria Nepomuceno, o número oficial de 1.415 casos registrados entre janeiro a dezembro de 2016 representam apenas 10% da realidade que se vive no estado. Segundo ela, a maioria dos casos são cometidos por pais ou padrastos, pessoas que, geralmente, são a única fonte de renda da família. A crise econômica teria favorecido a diminuição das denúncias desde 2016.

“Muitos dos casos não chegam até as entidades por esse medo de acabar com o sustento da casa. A tendência é que a exploração de crianças e adolescentes aumente por conta da crise. Precisamos fazer algo porque isso pode se perpetuar por décadas”, ressalta Valéria ao destacar também os casos que os próprios familiares exploram sexualmente essas crianças e adolescentes em troca de dinheiro.

De acordo com o delegado Ademir Soares, gestor do Departamento de Proteção à Criança e Adolescente (DPCA), foram registrados 45 estupros de crianças abaixo dos 13 anos de idade até março de 2017. “Os agressores ameaçam as vítimas para não contarem e, quando a revelação é feita, muitas vezes as mães não acreditam ou não querem colocar a família dentro de uma situação de repercussão muito grande. Essa mãe também tem medo porque esse abusador, que é marido dela, pai dela, irmão dela, costuma sustentar aquela família”, pontua.

Ainda segundo o gestor, as unidades de saúde e a escola ocupam o papel de descobrir o que está acontecendo com aquele jovem que apresenta indícios de violência, como o desejo de permanecer no colégio, mesmo além do horário escolar, e esconder o corpo. Porém, ele aponta que muitas crianças e muitos adolescentes estão deixando de serem atendidos por essas entidades. “É nessa rede que o caso eclode. Como esse atendimento está muito prejudicado, acaba, também, diminuindo o número de denúncias na delegacia”.

Para tentar reverter essa realidade, o Centro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Pernambuco lançou a campanha visando duas frentes de combate. O primeiro ponto é a discussão da autoproteção dos jovens vítimas desse tipo de violência. Para isso, o órgão irá debater o tema dentro das escolas da rede estadual, para que os estudantes tenham noção do que é considerado abuso. A outra frente incentiva o ato de denunciar.

“Não deixe de denunciar porque isso é uma forma efetiva de garantir o rompimento desse tipo de violência. Nós temos um elevado índice de subnotificação. Isso é mais um motivo para que, neste ano, na campanha, a gente faça esse incentivo à denúncia para reduzir esse abismo existente entre os casos que chegam e aqueles que são notificados. A gente tem uma realidade dura. Não estabelecemos uma meta, mas, se conseguirmos alcançar uma diminuição no número de subnotificações de 5%, já seremos vitoriosos”, afirma Ricardo Oliveira, coordenador da Rede de Enfrentamento Sexual Contra à Violência de Crianças e Adolescentes de Pernambuco.

Portal G1

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