terça-feira, 18 de abril de 2017

Filme sobre Nicolau II prova que um czar não pode amar, nem depois de morto

A relação amorosa entre Nicolau II e uma bailarina exibida no filme "Matilda" está gerando burburinho na Igreja e na Casa Imperial da Rússia, que o acusa de profanar a memória do santo e último czar russo, enquanto os ortodoxos mais radicais querem sua proibição.

"Você é o czar, tem direito a tudo, menos ao amor", diz o trailer do filme, ainda em fase de pós-produção e que pode ser lançado em outubro, às vésperas do centenário da Revolução Bolchevique.

"Matilda" conta a história da bailarina Matilda Kshesinskaya, de origem polonesa, estrela do Teatro Mariinsky, em São Petersburgo, no final do século XIX e que manteve uma breve, mas intensa relação com o czar entre 1892 e 1894.

Segundo historiadores, a relação acabou quando Nicolau II se casou com Alexandra Feodorovna e foi coroado poucos dias depois da morte de seu pai, Alexandre III.

Mas isso pouco importa. A Igreja Ortodoxa Russa e a Casa Imperial consideram uma "blasfêmia" falar com tanta leviandade sobre tais aspectos - para eles escabrosos - da vida do último czar, santificado no ano 2000.

"Este filme é um sacrilégio à memória de Nicolau II. Não tem nada a ver com a verdade histórica. É manipulação barata", disse Aleksandr Zakatov, representante da Casa Imperial Russa.

O vigário do Patriarcado de Moscou, Tikhon, qualificou "Matilda" de "calúnia", já que fala de "triângulos amorosos" antes e depois da coroação.

"Amor que mudou a Rússia? Segredo da dinastia Romanov? Toda São Petersburgo conhecia a relação entre o herdeiro e Kshesinskaya", comentou o religioso.

Mesmo sendo contrários, Aleksandr e Tikhon negaram que tenham pedido a proibição do filme, caminho oposto ao das organizações ortodoxas que armaram um escândalo e já reuniram milhares de assinaturas.

E não para por aí. Os grupos mais conservadores ainda enviaram mais de 1.000 cartas aos cinemas em todo o país pedindo o boicote ao filme.

"Qualquer cartaz, anúncio ou folheto com informação sobre o filme 'Matilda' será visto como um desejo de humilhar os santos da Igreja Ortodoxa e provocar um 'Maidan (revolução) russo'", diz o texto.

A campanha tem como porta-voz a famosa e jovem deputada Natalia Poklonskaya, ex-procuradora-geral da Crimeia e que surpreendeu a todos na última passeata em homenagem aos mortos na Segunda Guerra Mundial com um ícone de Nicolau II.

"A Rússia é apresentada no filme como um país de enforcamentos, alcoolismo e luxúria", afirma a denúncia da deputada, que foi pela segunda vez à Justiça para pedir a revisão do roteiro.

Para isso, propôs uma reunião de historiadores e analistas religiosos para determinar a veracidade do argumento de "Matilda" antes da estreia.

Em sua opinião, "não se pode permitir a exibição para o grande público de um filme que é uma consciente manipulação contra a História e destinado a desacreditar, manchar e caluniar um dos santos mais venerados de nossa Igreja: o mártir Nicolau II".

Natalia garante que ela mesma e os fiéis consideram que a produção ofende os sentimentos religiosos dos ortodoxos, o que pode ser punido com até três anos de prisão, conforme uma polêmica lei promulgada pelo presidente russo, Vladimir Putin.

A política ameaçou processar os produtores para defender a vida privada da família do czar caso não sejam tomadas medidas para corrigir erros históricos.

Para ela, até mesmo o protagonista é uma questão a ser revista. O czar é interpretado pelo alemão, Lars Eidinger, que fez o papel de um "pornográfico" no filme do britânico Peter Greenaway "Goltzius and the Pelican Company" (2012 - sem título em português).

"Goltzius and the Pelican Company" relata a vida do holandês Hendrik Goltzius, que teve a carreira marcada por sucessos e polêmicas, principalmente por fazer desenhos eróticos.

Em resposta, o diretor de "Matilda", Aleksey Uchitel, lamentou as críticas ao filme que "ninguém viu", com base apenas no trailer, e se mostrou disposto a apresentar a produção a todos os que desaprovaram.

"Tenho certeza que o filme não ofende os sentimentos dos fiéis. Gostaria de dizer a eles que é um filme patriótico, já que fala da difícil escolha entre o amor e o dever. A santidade nunca foi conquistada facilmente", disse.

O diretor adiantou que ele mesmo irá aos tribunais para responder Natalia, tachada de "inculta" quando reconheceu que não cogitou ver o longa.

Apesar de ter garantido que o motivo é não coincidir com as grandes estreias de Hollywood, "Matilda", que poderia ser lançado em outubro, deve estrear em março, coincidindo com o centenário da abdicação de Nicholas II.

Para o crítico de cinema Victor Matizen, as acusações da deputada são uma "completa bobagem" e beiram a censura, enquanto o Kremlin fica à margem de toda a controvérsia.

Nicolau II - foi o último Imperador da Rússia, Rei da Polônia e Grão-Duque da Finlândia. Nasceu no Palácio de Catarina, em São Petersburgo. É também conhecido como São Nicolau o Portador da Paixão pela Igreja Ortodoxa Russa. Oficialmente, era chamado Nicolau II, Imperador e Autocrata de Todas as Rússias. O último czar foi canonizado junto com sua família em 2000. 


Com informações do Portal UOL, Agência EFE e Wikipedia

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