sábado, 25 de março de 2017

Projeto do MST alfabetiza mais de 7 mil pessoas

O Maranhão tem cerca de um milhão de analfabetos, quase 20% de sua população, segundo os mais recentes dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A situação se agrava no meio rural, onde o índice sobe para aproximadamente 40%. 

Estes números deixam o estado atrás apenas do Piauí e Alagoas na taxa de analfabetismo no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013. 

Porém, foi sob este cenário que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) coordenou um curso de alfabetização de jovens adultos no estado do Maranhão ao longo de todo o ano de 2016, desenvolvido por meio de uma parceria com o governo do estado a partir de uma proposta do próprio MST, tornando-se a principal referência da Jornada de Alfabetização desenvolvida pelo governo Flávio Dino (PCdoB).

Ao longo desse período, mais de 7 mil pessoas foram alfabetizadas por meio do método do cubano “Sim, eu posso!”. O projeto se propôs a atuar nos 30 municípios com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixos do Maranhão. A parceria com o MST se deu inicialmente em 8 destes municípios: Aldeias Altas, Água Doce do Maranhão, Santana do Maranhão, Governador Newton Bello, São João do Caru, São Raimundo do Doca Bezerra, Jenipapo dos Vieira e Itaipava do Grajaú.

Em termos absolutos, foram muitas as pessoas alfabetizadas nesse processo. Mas quase nada em termos percentuais, já que representa menos de 1% da demanda maranhense. Por isso, a meta é dobrar a quantidade de pessoas alcançadas no estado em 2017, já que no final de fevereiro os representantes do governo do Maranhão garantiram essa ampliação.

“Eu nunca tinha estudado, nunca tinha tido a oportunidade, agora eu quero mais”, afirma Manoel Vieira de Sousa, 67 anos. Seu Manoel, com os olhos iluminados, entre feliz e orgulhoso, fez questão de escrever algumas palavras para demonstrar o seu recente aprendizado. Porém até chegar a este momento, muito esforço teve que ser empenhado. “No começo, a dificuldade foi grande, eu não sabia nada, não conhecia as letras”, explica o camponês, falando das primeiras aulas, comentando também sobre a alegria de sua esposa, ao vê-lo lendo. “Ela ficou muito, muito animada”, conta.

Essa foi apenas a segunda vez que a experiência do Sim, eu posso ocorreu no Brasil fora dos assentamentos do MST. A primeira foi no Ceará, na periferia da cidade de Fortaleza. Segundo Simone Silva Pereira, dirigente do MST no estado, esse tipo de trabalho, fora das bases do movimento, “é um passo num processo de emancipação da classe” como um todo.

Simone explica que o programa não se resume apenas ao processo de alfabetização. “As pessoas discutem sobre alimentação saudável, o problema da violência contra a mulher, a necessidade de todos continuarem estudando. No processo foi construído toda uma pauta de reivindicações”, destaca. Para ela, as pessoas envolvidas “vencem uma descrença e recuperam uma esperança”.

É o que conta, por exemplo, a educadora Alexandrina Silva Lima, do município de Santana do Maranhão, que neste processo alfabetizou a mãe de 65 anos, uma tia, além de outras 13 pessoas. Alexandrina diz que o sentimento de vergonha é comum entre as pessoas que não sabem ler e escrever, e esse é um dos primeiros obstáculos a ser superado. “É o medo de virar chacota”, explica. No seu caso, ela montou a sala de aula em casa, com mesas e cadeiras que não estavam sendo utilizadas por uma escola. Isso facilitou o acesso das pessoas de sua família. “Em casa eles ficaram mais à vontade”, disse a educadora.

Para a execução do projeto foram contratadas 702 alfabetizadores e 71 coordenadores, que formaram 628 turmas e trabalharam sob o comando político pedagógico do MST. Na pareceria realizada, o governo entrou com a estrutura e a logística, enquanto o movimento garantiu o método, a mobilização e a coordenação geral. Em cada um dos oito municípios havia, permanentemente, dois representantes do MST, acompanhando de perto cada detalhe do processo.

Dificuldades - No entanto, nem tudo caminhou conforme o planejado. Alguns obstáculos colocaram maiores desafios no desenvolvimento do programa, como a própria dificuldade de se chegar aos povoados. Em alguns casos só é possível chegar por meio de moto ou carro traçado, o que dificultava inclusive o transporte dos aparelhos de TV, utilizados nas aulas. Soma-se a isso as chuvas, estradas ruins, ausência de local adequado para instalar salas de aula, a necessidade dos educandos de conciliar o estudo com o trabalho, os filhos pequenos de alguns, o cansaço pelo ofício na roça, a descrença generalizada no serviço público, a desmotivação inicial de muitos, entraves burocráticos e, no caso de alguns indígenas, até a comunicação entre educadores e educandos por conta do idioma.

O relato de algumas educadoras aponta que alguns tinham dificuldade até para segurar o lápis. Além da dificuldade de ler e escrever, muitos têm problemas de vista. O planejamento previa começar as aulas somente após a chegada dos óculos. Houve atraso na entrega, por parte do poder público. Em alguns casos, a espera durou quatro meses, e algumas aulas tiveram que começar sem os óculos, com os alunos reclamando de dor nos olhos ao forçar a vista durante os estudos.

Todavia, o saldo positivo superou as dificuldades enfrentadas das mais diversas formas. Em Itaipava do Grajaú, por exemplo, o pedreiro Emanoel Alves dos Santos, de 37 anos, conta que sua alfabetização serviu de grande estímulo para seus dois filhos que estão cursando o ensino médio e fundamental.

A intenção central do programa, porém, é que essa política de educação, somada à políticas de saúde e geração de trabalho dê mais qualidade de vida à população local. “Se o agricultor estiver alfabetizado, melhor ele aprenderá a usar as tecnologias e terá maiores condições de aumentar sua produtividade e melhorar sua renda”, explica o secretário de estado de agricultura familiar, Adelmo Soares.

Metodologia - Em geral, são preciso apenas quatro meses para que a pessoa aprenda a ler a escrever pelo método de alfabetização “Sim, eu posso!”. Num primeiro momento, os educandos têm a ajuda de vídeo aulas por meio de uma teledramaturgia (telenovela).

Após os quatro meses o projeto avança para os chamados “Círculos de Cultura”, uma metodologia de educação popular baseada nas propostas do educador Paulo Freire. Nessa fase, há quatro temas básicos que orientam o aprendizado: cultura, trabalho, participação política e história.

As salas de aula são instaladas onde é possível. Além de escolas públicas, clubes, associações, sindicatos, terreiros de cultos afros, salões de igrejas cristãs, espaços comunitários de aldeias indígenas, casas de educandos e de educadores e até bares viram salas de aula. Em Santana do Maranhão, por exemplo, a educadora Maria do Socorro Costa Saraiva, entre idas e vindas, pegava alguns dos seus educandos de moto e levava até o local onde faziam o processo de formação.

Para Lizandra Guedes, militante do MST e uma das coordenadoras da jornada, tem ocorrido um verdadeiro mutirão com este processo. “Essa tem sido a realidade em todos os municípios onde acontece o programa. A Jornada de Alfabetização virou uma jornada de solidariedade pelo ato de ler e de escrever. Muitos sujeitos têm se somado”, aponta.

No município Jenipapo dos Vieiras, por exemplo, que tem o 6º pior IDH do estado, a jornada atingiu 30% da população analfabeta. Lá foram formadas 72 turmas, sendo que 24 delas em aldeias indígenas. Em algumas, parte dos habitantes nem sequer sabiam falar português. Dessa forma, o “Sim, eu posso” foi um curso para aprender a falar, ler e escrever em um novo idioma. Tereza Paiva, assistente social e militante do MST, explica que o papel dos educadores neste caso era “dar acesso ao saber sem alterar a cultura”.

Era comum nas aldeias indígenas de Jenipapo dos Vieiras a busca dos caciques pelas aulas, já que várias desses locais não têm ensino regular. Segundo Tereza, em uma turma de 15 alunos matriculados, mais de 20 pessoas assistiam às aulas, entre adultos e crianças indígenas. Na Aldeia Kriuli, o pequeno Hamilton Guajajara, de 10 anos, que nunca tinha ido à escola e que começou a frequentar as aulas apenas para acompanhar seu pai, em quatro meses já passou a escrever seu nome e o dos colegas.

Entre uma história e outra, Teresa Paiva avalia que “no método convencional o indivíduo aprende a ler e escrever num período médio de um ano de atividade escolar. No método utilizado no Maranhão em cinco meses se atinge esse patamar, estudando apenas duas horas por dia.”

Dos 9.492 educandos matriculados no “Sim, Eu Posso!”, aproximadamente 75% foram efetivamente alfabetizados, o que totalizou os mais de 7 mil jovens, adultos e idosos que tiveram a oportunidade de enfrentar o desafio de vencer o analfabetismo.

Um exemplo desse sucesso é contado pela Tereza, quando num Povoado de Lagoa do Coco, em Jenipapo dos Viera, uma professora foi às lágrimas ao ver um pai, recém-alfabetizado, muito emocionado, conseguindo escrever a primeira carta para seu filho, que mora fora do Maranhão. No mesmo município, uma das 72 turmas pediu beca para a formatura do programa. 

Embora não houvesse orçamento para isso, a festa aconteceu do mesmo jeito. Com poucos recursos levantadas pela turma, os alunos improvisaram os chapéus a partir de borracha de EVA e fizeram as becas com o tecido TNT. Após a formatura, os educandos, já sabendo ler e escrever, realizaram o desejo de jogar os chapéus para cima, seguindo uma tradição de escolas e universidades pelo mundo afora.

Próximos passos - Os próximos dois meses serão de mobilização e preparação de educadores e coordenadores para mais uma etapa do programa. O Secretario de Educação, Felipe Camarão, afirmou que o processo para a próxima etapa do programa já estão bem avançadas. Segundo ele, alguns dos municípios que participaram da primeira etapa também podem ter como meta a superação real do analfabetismo. Um deles, segundo o Secretário, é Aldeias Altas – que na primeira Jornada reduziu em 35% o número de analfabetos.

Revista Forum

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