quinta-feira, 23 de março de 2017

Posse de Alexandre de Moraes no STF custou R$ 350

Alexandre de Moraes estava disputado. Ora posava para a foto com uma fã, ora com um político importante. Na festa que celebrou sua posse como ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o novato estava bem humorado e conversou alegremente com todos os presentes, que precisaram pagar adesão no valor de R$ 350 para participar do evento. O ingresso incluía bebida e comida farta, banda de bossa nova ao vivo e grandes chances de apertar a mão do mais novo integrante da nata do Judiciário.

Horas antes, houve a solenidade de posse no tribunal. As formalidades da corte dirigiram o evento, com cumprimentos contidos e protocolos respeitados. Na festa, mais descontraído e visivelmente feliz, ele desabafou à imprensa.

— Vocês são muito ridículos. Só querem tirar foto quando estou perto de um tucano. Veio o Alckmin, todo mundo tirou foto — disse, em tom de brincadeira.

— Mas se o Lula estivesse vindo, seria uma foto ainda melhor — argumentou um jornalista.

— Ele não veio — ponderou, completando: — Mas eu chamei o Haddad! — lembrou, referindo-se ao petista Fernando Haddad, que foi prefeito de São Paulo e não foi à posse.

O bom humor do ministro foi ameaçado quando, em uma roda, uma pessoa pensou que ele fosse sete anos mais velho do que atesta sua certidão de nascimento. O palpite era de que ele teria 55 anos, mas a informação foi prontamente desmentida.

— Tenho 48 anos. Sou de 13 de dezembro de 1968 — esclareceu.

Um dos presentes quis confirmar se era mesmo essa a data. Moraes adiantou-se:

— Sim, o dia do AI-5. Nasci em 13 de dezembro de 1968 às 13h20. Então, não tenho nada contra o 13 — declarou, lembrando, de uma só vez, a data em que foi baixado o Ato Institucional 5 da ditadura militar, que endureceu o regime, e também o número do PT nas urnas.

Em todas as fotos, Moraes sorria, demonstrando satisfação com o evento, que foi organizado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). Era sempre observado pela mulher, a atenta Viviane de Moraes. Embora estivesse bastante falante na festa, Moraes recusou pedidos de entrevista.

— Eu vou falar quando tiver novidade. Se eu falar agora, vou repetir tudo o que falei.

O estilo assertivo do ministro foi confirmado pelo chefe de gabinete, Rafael Gessinger, que trabalhava diretamente com ele no Ministério da Justiça. Gessinger informou que o chefe será centralizador nas decisões judiciais, delegando pouco aos assessores que terá à disposição no gabinete.

Dos dez colegas de STF, cinco compareceram à comemoração: Gilmar Mendes, Marco Aurélio Mello, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Luís Roberto Barroso. Dos três primeiros, Moraes já era amigo antes da nomeação.

Nas rodas de conversas, o imbróglio entre Gilmar e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ainda era assunto. Uns eram do time do ministro, outros defendiam o procurador. Janot não foi à festa. O vice dele, Bonifácio Andrada, evitou comentários. Já Gilmar repetiu em alto e bom som as críticas feitas ao procurador — em especial, o suposto vazamento de investigações sigilosas.

Também fez questão de apertar a mão de Moraes o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Leandro Daiello. O novo ministro do STF foi chefe de Daiello até fevereiro, já que a PF é subordinada ao Ministério da Justiça. Nas rodas das conversas em que ele estava, era inevitável falar da Operação Carne Fraca, que investiga irregularidades na fiscalização da produção de carnes no país. Questionado se tinha cortado a carne da dieta, ele respondeu:

— Isso é pergunta que se faça para um gaúcho? Eu me casei com uma mulher que criava uma ovelha em casa — contou.

Daiello ainda teve a perspicácia de fazer piada com a situação:

— Não entendo nada de vaca, mas me casei com uma mulher que entende. Eu não sabia a diferença entre um boi e um touro!

Na festa, poucos se preocuparam com os indícios apresentados pela Operação Carne Fraca. Um dos itens do cardápio era filet mignon. Perguntado se a origem do produto era importada, o garçom respondeu:

— Olha, não sei de onde é não. Você é a primeira pessoa que me perguntou isso. Tá todo mundo se servindo, normal.

Não se sabe se por cautela, ou se por preferência do paladar, Moraes se serviu de camarão flambado e arroz branco.

Na mesa ao lado, Lewandowski estava de pé conversando animadamente com outros convidados. A mulher dele, Yara, mais discreta, estava sentada ao lado do ministro Herman Benjamin, o relator do processo que pede a cassação da chapa de Dilma Rousseff e Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os dois divertiam-se vendo fotos um no celular do outro.

A poucos metros, Barroso falava sobre legalização de drogas — uma contraposição a um vídeo divulgado no ano passado de Moraes, quando era ministro da Justiça, cortando pés de maconha no Paraguai. Barroso disse que nunca consumiu drogas — até porque, na juventude, era jogador de vôlei na seleção carioca, chegando a disputar o campeonato brasileiro na década de 1970. Com carinho, lembrou que era contemporâneo de Bernardinho — que seguiu carreira e foi treinador da seleção brasileira masculina e da feminina. Contou que, dia desses, recebeu do amigo famoso uma bola de vôlei de presente, em homenagem aos velhos tempos.

— Estou velho, tenho ótima memória para coisas antigas, mas se me perguntarem o número do meu celular, não sei responder — riu o ministro, que era levantador no vôlei.

Entre os tucanos presentes ao evento, o senador José Serra (PSDB-SP) era dos mais animados. Circulou e conversou com vários ministros — entre eles, Luciana Lóssio, do TSE, que também deverá julgar o processo contra a chapa de Dilma e Temer. Serra teria sido citado na delação premiada da Odebrecht e já dava como certo que o STF abriria inquérito contra ele na Lava-Jato.

Jornal O Globo (Rio)




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