quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Trump inspira movimento antigoverno no México

Ao marchar atrás de um boneco do presidente americano, Donald Trump, e de seu planejado muro na fronteira com o México, Benita Quiros admitiu que nunca havia participado de um protesto. No último domingo (12/02), a mulher de 46 anos marchou ao lado de outros estimados 11 mil manifestantes pela Cidade do México, portando bandeiras mexicanas e cartazes. "Não queremos um muro, queremos ser livres", disse.

Chamada Vibra México, a marcha foi organizada por cerca de 70 grupos civis, universidades e organizações não governamentais. Segundo Janet de Luna, do grupo Mexicanos contra a Corrupção e a Impunidade, a Vibra México foi convocada para "rejeitar as políticas de Donald Trump e reivindicar que o nosso governo lute contra a corrupção que deixou o povo vulnerável".


Enquanto organizadores insistiram que o protesto foi apartidário, muitos manifestantes aproveitaram a marcha para expressar seu descontentamento com o nada popular presidente mexicano, Enrique Peña Nieto. Alguns carregavam cartazes com as palavras "Fora Peña!" e "presidente #fake" ou exibiam fotomontagens da cabeça do mandatário sobre um corpo de um asno. Outros contaram lentamente até 43, em homenagem aos estudantes de Ayotzinapa que desapareceram em 2014 e cujo caso ainda não foi esclarecido.

Segundo Quiros, de uma pequena cidade no estado predominantemente rural de Oaxaca, Trump e seus ataques contra o México a fizeram ir para a rua, mas sua verdadeira raiva é mais profunda. "As pessoas estão com fome. E em vez de oferecer empregos, os políticos no México só roubam e roubam. É por isso que as pessoas deixam o país e vão para os Estados Unidos", afirmou.

Num país assolado por escândalos de corrupção, violações de direitos humanos e dificuldades econômicas, Trump se transformou num catalisador de um movimento sociopolítico em ascensão contra o próprio presidente mexicano.

"Há um amplo sentimento de indignação", diz John Ackerman, professor do Instituto de Pesquisa Legal da Universidade Nacional Autônoma do México. "Trump uniu o povo mexicano de uma maneira que não costuma acontecer e os sintetizou com a mesma força contra Peña Nieto."

Ackerman vê os elementos anti-Peña Nieto que emergiram no último domingo como uma continuação de um movimento crescente iniciado após o desaparecimento dos estudantes de Ayotzinapa e reaceso com os protestos contra o "gasolinazo". Estas últimas manifestações, em janeiro deste ano, foram motivadas por um aumento de 20% no preço da gasolina.

Imigrantes e deportados

"Sentimos a dor juntos, a incerteza, a raiva", diz Maria Garcia, que deu início à Coalizão Binacional contra Trump pouco depois de o magnata lançar sua candidatura à presidência. "Ele causou tanta dor na nossa comunidade com seus acessos de racismo." Ela e seu grupo organizaram uma série de protestos contra o presidente americano.

Para Garcia, que viveu como imigrante ilegal nos EUA, a maior preocupação são os amigos e a família que ainda vivem lá. Na semana passada, agentes anti-imigração detiveram centenas de imigrantes sem documentos no país, incluindo uma mãe de duas crianças nascidas em solo americano que vive no Arizona. "Não há nada mais cruel ou doloroso que separar uma mãe de seus filhos por meio da deportação", diz Garcia.

Ela teme tanto o destino dos migrantes forçados a voltar para o México quanto os dos que ainda estão nos EUA. "Deveríamos ser reconhecidos como uns dos maiores contribuintes da economia mexicana", diz, referindo-se aos 27 bilhões de dólares que mexicanos vivendo nos EUA enviaram para o país natal em 2016. "Em vez disso, somos tratados como traidores."

No mês passado, Garcia criou a Frente para Mães e Pais Deportados para reivindicar que o governo de Peña Nieto ofereça apoio legal e financeiro para migrantes que são enviados de volta para o México.

Memes e hashtags

Desde a eleição de Trump, mexicanos também manifestaram sua indignação com uma série de memes, hashtags e vídeos nas redes sociais. José Vázquez é moderador da página do Facebook "Mexicanos ao Grito de Guerra" (frase retirada do Hino Nacional). A página foi lançada pouco depois de Trump ser nomeado como candidato republicano à presidência e agora tem mais de 230 mil seguidores.

"O discurso de ódio dele [Trump] feriu os mexicanos e a nossa dignidade", afirma Vazquez. "Mas ele também reacendeu a criatividade mexicana."

Para Vazquez, a página se tornou um meio para as pessoas manifestarem suas críticas ao governo Peña Nieto e o clamor por mudanças sociais. "O governo corrupto e ganancioso de Enrique Peña Nieto entregou o México e suas riquezas para mãos estrangeiras."

O grupo de Vázquez se uniu a um movimento nacional para boicotar empresas e produtos americanos. Na semana passada, viralizou no país a hashtag "AdiosStarbucks, convocando as pessoas a boicotarem a rede de cafeterias. Um grupo ativista lançou a campanha "Consumidores, ao grito de guerra", convocando a população a comprar produtos mexicanos e usar o poder dos consumidores para punir empresas que apóiem o novo governo dos EUA.

Críticas ao ativismo

Alguns criticam esse tipo de ativismo digital. "Não há uma verdadeira liderança nesse movimento. A liderança é entendida como uma hashtag", diz Emilio Lezama, escritor e comentarista político. "Há uma ideia folclórica de nacionalidade e orgulho nacional, mas isso não se materializou num verdadeiro projeto social e político."

Lezama aponta que a Vibra México inspirou uma divisão no país, com alguns ativistas e comentaristas argumentando que o foco em Trump é uma distração dos problemas reais que o país enfrenta.

"A Vibra México apoia Peña Nieto", diz Vazquez. "Repudiamos a marcha e seus organizadores que mamam nas testas do governo." Também para Ackerman a archa é um exemplo de como o governo "usa o fenômeno Trump para reforçar sua própria legitimidade".

Para alguns participantes da marcha, no entanto, a Vibra México foi apenas o começo. "O país está percebendo que o governo não funciona, que nossos governantes são bandidos e nossos legisladores são corruptos", diz Luis Preciado, de 75 anos, que marchou no último domingo pela primeira vez desde as manifestações estudantis de 1968. "Eu sei que a tarefa é difícil, mas acredito em mudança."

Deusche Welle Brasil

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